A influência da mídia

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Roupas decotadas, saias curtas, cabelo escovados e assessórios da moda. O look descrito, típico de mulheres adultas, é o que veste um manequim de uma loja de roupas infantis. Ele reflete o comportamento atual das meninas pré-adolescentes, oriundas de famílias de classe média de centros urbanos.

A pernambucana Melissa Lins Caldas tem 15 anos e, desde pequena, sonhava em ser modelo. Antes dos 10 já havia participado do concurso de moda Miss Mirim e, na quinta série, desfilou no Top Model Nordeste. “Todo mundo falava que eu era magrinha, bonita e que devia ser modelo. Isso acabou se tornando meu sonho” , conta a garota em entrevista pessoal. Além desse exemplo, a revista Veja, já trazia, em sua edição de novembro de 2000, apresentou uma matéria explorando esse universo.

O aniversário de 9 anos da paulistana Mirella Camanho foi comemorado em um salão de beleza, onde ela e outras nove amiguinhas se divertiram com o arsenal a sua disposição: pintaram as unhas, fizeram escova no cabelo e foram maquiadas. A festa da curitibana Camila dos Santos, da mesma idade, foi mais convencional. Teve salão de festa transformado em boate, com direito a luz estroboscópica, DJ e, no lugar de bolo e brigadeiro, jantar à base de estrogonofe. Muito gente grande, sem dúvida, mas o tipo de balada evitado ultimamente pela carioca Dora Ghelman, 8 anos. Preocupada com o que considera alguns quilos a mais, ela tirou o arroz do cardápio, evita doces e guloseimas e se pesa todo dia na balança de casa. Mirella, Camila e Dora são o retrato das meninas de 7 a 12 anos, um clube de princesinhas precoces, exigentes e decididas, que, cada vez mais, trocam a brincadeira de casinha e boneca por horas na frente do espelho, modelitos produzidos ou altos papos.
(VEIGA, 2000, p. 42-45.)

E o mercado já captou essa precocidade, disponibilizando vários produtos direcionados para as pequenas. Entretanto, como toda indústria, a moda está atenta para os lucros, não mede conseqüências. As garotas, incentivadas pela mídia, aprendem a passar batom com pouca idade, usam roupas sensuais e dançam músicas com apelos sexuais. Os programas infantis também fomentam a troca das bonecas e brincadeiras pelas horas na frente do espelho, modelitos produzidos e altos papos.

O problema é que todos esses elementos incentivam a erotização da infância, o que, segundo a psicóloga e psicanalista do Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual (GTPOS), Maria Cristina Domingues Pinto, é bastante nocivo . Ela diz que é prejudicial, pois a criança precisa viver seu desenvolvimento sexual de forma natural, sem ninguém incentivando. A intervenção de adultos acontece no sentido da orientação, mas as atitudes são tomadas e as explicações feitas na medida em que a demanda natural sugerir. Infelizmente isso não é o que acontece, vemos pelas ruas, meninas que parecem mini-adultos.

O que impressiona é quando uma garota se veste como menininha, de acordo com a sua idade. “Iyakekerê” conta sua história a história de que, saindo da igreja, foi abordada por um grupo de senhoras comovidas com as vestimentas de sua neta . “Todas as senhoras estavam admirandas com a forma descente e elegante que ela estava vestida. Acho que a sexualidade infantil virou produto de importação e exportação, um simples produto que faz vender” (IYAKEKERÊ. 2006. on-line).

Além de se vestirem como adultas, essas meninas têm preocupações de gente grande, querendo ser e, muitas vezes, sendo cobradas a agir como adultas antes da hora. A recifense Maria Luisa de Andrade, por exemplo, tem 8 anos e a agenda lotada. Todos os dias depois do colégio ela freqüenta aulas de piano, pintura e ginástica rítmica. Sua mãe, a psicóloga Ana Valéria, conta que é importante a criança participar de atividades que desenvolvam o intelecto, mas salienta a importância da brincadeira na vida dos pequenos . “Tirei Luisa do conservatório, onde tinha aulas de piano, por causa da pressão que sofria quando ia fazer provas ou apresentar-se. Crianças não podem ser cobradas como adultos”, salienta a psicóloga.

Renata Guaraná, que estuda psicologia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), desde os 15 anos queria colocar silicone. Apesar de todas as despesas da cirurgia terem sido pagas pelo pai, o sonho da plástica apenas se concretizou três anos depois, quando atingiu a maioridade. Segundo ela, além da pressão social que dita: ‘seja isso, se encaixe’, existe aquilo que a criança internaliza . “O problema é que a criança não consegue diferenciar o que é exterior e sua necessidade. Então a vaidade vai exigir e a criança vai tomar para si como se fosse de sua autoria”, analisa a estudante.

Nesse sentido a mídia é um dos fatores que mais influenciam as crianças, incentivando a erotização. Especialmente através da televisão, criam-se condições de incentivo a produção de crianças com comportamento erotizado. São programas infantis, novelas para adolescentes, programas exibidos em horários inadequados e outros fatores que aceleram esse processo. Por vezes, esta produção é sutil, revelando-se, por exemplo, no modo de vestir adulto; na forma de posar e fotografar; em outras, a assunção e imitação de comportamentos erotizados adultos é explícita, chegando a ser, até mesmo, grotesca.

A música merece atenção especial. Grupos como É o Tchan e outras bandas do gênero incentivam a precocidade sexual. O fenômeno desse grupo de pagode fez com que várias meninas se vestissem como as dançarinas da banda – roupas curtíssimas – para imitar as coreografias. Proliferou-se de tal forma a dança da “boca da garrafa” e do “segura o tchan” que tornou-se normal ver meninas com menos de 10 anos rebolando sensualmente. A cena se repetia na televisão, inclusive em programas infantis, escolas e, até mesmo, dentro do seio familiar.

Essa cena musical mudou um pouco. Hoje percebe mais a invasão sexual do universo infantil, proposta pelas novas bandas de brega. As bandas cantam letras que, através de uma resignificação, dão conotações sexuais a objetos infantis, como pirulito, pinto e etc. É problemático porque as crianças, ainda que não entendam, notam a diferença do pintinho que criam na varanda de casa, para o “pinto do meu pai” que “fugiu com a galinha da vizinha”, como canta o grupo Raça Negra, na música “O pinto”.

É importante ainda atentar para as conseqüências de tal precocidade. A erotização das crianças atua, de certa forma, também no adulto. Ele passa a ter sua libido estimulada pelo freqüente bombardeio de imagens erotizadas de adolescentes e pré-adolescentes cada vez mais jovens. Isso gera, nos adultos, fantasias sexuais que criam uma demanda, ou seja, um mercado para este produto.

Em uma edição nacional, a revista Playboy, já há algum tempo, como marketing de venda, anunciou ao Brasil inteiro um ensaio fotográfico de uma modelo da seguinte forma: “18 aninhos, mas um corpinho de 13” . Em outras palavras, a mercadoria vendida era a circunstância da garota aparentar treze anos de idade. Em última análise, a revista lançava a o produto com um apelo publicitário voltado para a imagem erótica de um corpo adolescente, evidenciando, assim, a existência de um mercado para este tipo de estímulo sexual e fantasia.

Para isso a psicóloga e psicanalista do Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual (GTPOS), Maria Cristina Domingues Pinto, já havia alertado. “Alguns adultos têm a tendência de projetar nas crianças a sua sexualidade adulta genital, que nada tem a ver com a das crianças. Sem que as crianças ou os pais saibam, podem estar provocando ‘adultos’ não muito estruturados, o que pode resultar, no limite, em abuso sexual” , preocupa-se a especialista.

Até o que era natural, sob o aspecto biológico, têm mudado. A matéria entitulada “Princesas Precoces”, publicada na Revista Veja, da editora Abril, em novembro de 2000 revelou um levantamento que comprova o fato . Segundo a revista, pesquisas feitas no Brasil, Estados Unidos e Europa comprovam que a idade média da primeira menstruação, que no começo do século XX variava entre 14 e 15 anos, hoje acontece entre os 10 e 11 anos de idade.

O ginecologista Jonathas Soares acredita que esta geração de meninas recebe tantos estímulos sexuais que o cérebro acaba produzindo hormônios mais cedo. Revelados esses dados é salutar uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema. Isabel Pedroza, professora da disciplina de Desenvolvimento Infantil na Universidade Federal de Pernambuco, é testemunha da necessidade. “Sou professora e pesquisadora na área do Desenvolvimento Infantil, mas nunca li nada sobre a influência da moda no comportamento da criança”, ressalta.

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