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Nessa comovente, engraçada continuação de sua celebrada palestra de 2006, Sir Ken Robinson defende uma mudança radical das escolas padronizadas para um aprendizado personalizado — criando condições nas quais os talentos naturais das crianças possam prosperar.

 

Estive aqui há quatro anos, e eu lembro, que naquele tempo, as palestram não eram colocadas no site; Acho que elas eram dadas aos TEDsters em uma caixa, uma caixa com DVDs, que eles colocavam em suas estantes, onde estão agora.

(Risos)

E na verdade o Chris me ligou uma semana após minha palestra e disse, “Vamos começar a colocá-las online. Podemos colocar a sua?” E eu disse, “Claro.”

E quatro anos depois, como eu disse, ela foi vista por quatro … Bem, ela foi baixada quatro milhões de vezes. Então suponho que possamos multiplicar isso por 20 ou algo assim para obter o número de pessoas que já viram-na. E como o Chris diz, há uma fome por meus vídeos.

(Risos)

(Aplausos)

… vocês não sentem?

(Risos)

Então, todo esse evento tem sido uma construção elaborada para que eu fizesse outra para vocês, então aqui está.

(Risos)

O Al Gore falou na TED Conference que eu falei quatro anos atrás e falou sobre a crise climática. E eu citei aquilo no fim da minha última palestra. Então eu quero continuar dali porque só tive 18 minutos, francamente. Então, como estava dizendo…

(Risos)

Percebam, ele está certo. Quero dizer, há uma séria crise climática, obviamente. E acho que se as pessoas não acreditam, elas deveriam sair mais. (Risos) Mas eu acredito que há uma segunda crise climática, que é tão severa quanto, que tem as mesmas origens, e que temos de lidar com a mesma urgência. E com isso quero dizer — e vocês devem dizer, a propósito, “Olha, estou bem, eu tenho uma crise climática; eu não necessariamente preciso de outra.” Mas essa é uma crise, não de recursos naturais, apesar de acreditar que isso é verdade, mas de recursos humanos.

Acredito, fundamentalmente, assim como muitos palestrantes falaram nos últimos dias, que aproveitamos muito pouco dos nossos talentos. Muitas pessoas passam a vida inteira sem ter noção de que talentos podem ter, ou se tem algum para citar. Encontro todo tipo de pessoa que não acha que é realmente boa em algo.

Na verdade, eu meio que divido o mundo em dois grupos agora. Jeremy Bentham, o grande filósofo utilitário, pregou uma vez esse argumento. Ele disse, “Há dois tipos de pessoas nesse mundo, aquelas que dividem o mundo em dois tipos e aquelas que não dividem.” (Risos) Bem, eu divido. (Risos)

Encontro todo tipo de pessoa que não gosta do que faz. Elas apenas vivem a vida seguindo em frente. Elas não sentem grande prazer do que fazem. Elas suportam, ao invés de aproveitar, e esperam pelo fim de semana. Mas também encontro pessoas que amam o que fazem e não se imaginam fazendo outra coisa. Se dissesse a elas, “Não faça mais isso,” elas se perguntariam sobre o que você está falando. Porque isso não é o que elas fazem, mas quem elas são. Elas dizem, “Mas isso sou eu, você sabe. Seria estupidez abandonar isso, porque isso condiz com meu eu mais autêntico.” E isso não é a verdade de muitas pessoas. De fato, pelo contrário, eu acho que é certamente uma minoria. E acho que há muitas

possíveis explicações para isso. E com destaque entre elas está a educação, porque a educação, de alguma maneira, desloca muitas pessoas de seus talentos natos. E recursos humanos são como os recursos naturais; estão freqüentemente enterrados bem fundo. Você tem de procurá-los. Eles não estão por aí na superfície. Você tem de criar circunstâncias para que eles se mostrem. E você deve imaginar que a educação seria a forma disso acontecer. Mas normalmente não é. Todo sistema de educação no mundo está sendo reformado nesse momento. E isso não é suficiente. A reforma não é útil mais, porque é apenas aperfeiçoar um modelo quebrado. O que precisamos — e essa palavra tem sido usada muitas vezes durante os últimos dias — não é evolução, mas uma revolução na educação. Ela tem de ser transformada em outra coisa.

(Aplausos)

Um dos desafios reais é inovar fundamentalmente a educação. A inovação é árdua porque significa fazer algo que as pessoas não acham fácil na maior parte. Significa desafiar o que não valorizamos realmente, coisas que acreditamos serem óbvias. O grande problema para uma reforma ou transformação é a tirania do senso comum, coisas que o povo pensa, “Bem, isso não pode ser feito de outra maneira, porque essa é a maneira como é feito.”

Eu me deparei recentemente com uma grande citação de Abraham Lincoln, quem eu penso que vocês gostariam que fosse citado agora. (Risos) Ele disse isso em Dezembro de 1862 para o segundo encontro anual do congresso. Eu devo explicar que não tenho idéia d que estava acontecendo na época. Não ensinamos história americana na Grã-Bretanha. (Risos) Nós a suprimimos. Vocês sabem, essa é nossa política. (Risos) Então, sem dúvida, algo fascinante estava acontecendo em Dezembro de 1862, o que os Americanos entre nós terão conhecimento.

Mas ele disse isso: “Os dogmas do passado quieto são inadequados para o presente turbulento. A ocasião está amontoada de dificuldades, e devemos nos erguer com a ocasião.” Eu amo isso. Não erguer para isso, mas com isso. “Como nosso caso é novo, devemos pensar de novas maneiras e agir de outros modos devemos nos descativar e então devemos salvar nosso país.”

Eu amo essa palavra, “descativar.” Sabem o que significa? Que há idéias que todos nós somos cativos, que simplesmente não valorizamos como a ordem natural das coisas,a forma que elas são. E muitas de nossas idéias tem sido formadas, não para atender às circunstâncias desse século, mas para superar as circunstâncias de séculos anteriores. Mas nossas mentes ainda estão hipnotizadas por elas. E temos de nos descativar delas. Agora, é mais fácil falar do que fazer. É muito difícil saber, a propósito, o que você não valoriza E o motivo é que você nem percebe.

Então deixe-me perguntar algo que talvez vocês achem normal. Quantos aqui tem mais de 25 anos? Não é isso que acho que vocês não percebem. Tenho certeza que vocês já são familiarizados com isso. Tem alguém aqui com menos de 25? Ótimo. Agora, os que tem acima de 25, poderiam levantar as mãos se estiverem usando um relógio de pulso? É a grande maioria, não é? Pergunte à uma sala de adolescentes a mesma coisa. Eles não usam relógios de pulso. Não quero dizer que não podem ou não lhes permitem, eles apenas escolhem não usar. E o motivo é, como podem ver, nós fomos educados numa era pré-digital, nós com mais de 25. E então para nós, se quisermos saber as horas, temos de usar algo que nos diga. Crianças agora vivem em um mundo digitalizado, e as horas, para eles, está em todos os lugares. Eles não vêem motivo para isso. E, a propósito, vocês também não precisam usar; é apenas que vocês sempre usaram, e então mantêm o hábito. Minha filha nunca usa um relógio, minha filha Kate, que tem 20. Ela não vê por que o usar. E ela diz, “É um dispositivo com uma função.” (Risos) “Tipo, quão chato é isso?” E eu digo, “Não, não, ele mostra a data também.” (Risos) “Ele tem múltiplas funções.”

Mas vejam, há coisas de que somos cativos na educação. Deixe-me lhes dar dois exemplos. Um deles é a idéia da linearidade, que começa aqui, e você vai por uma pista, e se fizer tudo certo, você vai se dar bem pelo resto de sua vida. Todos que falaram no TED nos disseram implicitamente, ou, às vezes, explicitamente, uma história diferente, que a vida não é linear, é orgânica. Criamos nossas vidas simbioticamente à medida que exploramos nossos talentos em relação às circunstâncias que eles ajudam a criar para nós. Mas vocês sabem, ficamos obcecados com essa narrativa linear. E provavelmente o ápice para a educação é chegar a uma universidade. Acho que estamos obcecados em colocar pessoas lá, alguns tipos de universidades. Não quero dizer que você não deve ir a uma, mas nem todos precisam ir, e nem todos precisam ir agora. Às vezes eles vão depois, não agora mesmo.

E eu estava em São Francisco algum tempo atrás dando alguns autógrafos. Havia esse rapaz comprando um livro, ele tinha cerca de 30 anos. E eu disse, “O que você faz?” E ele disse, “Sou bombeiro.” E eu disse, “Há quanto tempo você é bombeiro?” Ele disse, “Sempre, sempre fui um bombeiro.” E eu disse, “Bem, quando você decidiu ser?” Ele disse, “Quando criança.” E disse, “Na verdade, isso era um problema para mim na escola, porque lá, todos queriam ser bombeiros.” Ele disse, “Mas eu queria ser um bombeiro.” E ele disse, “Quando cheguei ao ensino médio, meus professores não levavam a sério. Esse professor não levava a sério. Ele disse que eu estava desperdiçando a minha vida se eu escolhesse fazer isso, que eu poderia ir para universidades, deveria me tornar um profissional, que eu tinha grande potencial, e estava desperdiçando meu talento para fazer isso.” E ele disse, “Foi humilhante porque ele disse isso na frente de todos da sala, e eu me senti horrível. Mas era o que eu queria e logo que sai da escola, eu me inscrevi nos bombeiros e fui aceito.” E ele disse, “Sabe, estava pensando nesse cara recentemente, nesse professor, minutos atrás quando você estava falando,” ele disse, “porque há seis meses, eu salvei a vida dele.” (Risos) E ele disse, “Ele estava em um carro destroçado, e eu o tirei, lhe fiz reanimação cardíaca, e eu lhe salvei a vida.” Ele disse, “Acho que ele me considera mais agora.”

(Risos)

(Aplausos)

Vocês sabem, para mim, comunidades humanas dependem de uma diversidade de talentos, não de um conceito de habilidade. E no coração de nossos desafios — (Aplausos) O coração do desafio é reconstituir nosso senso de habilidade e de inteligência. Essa coisa de linearidade é um problema.

Quando cheguei em Los Angeles cerca de nove anos atrás, eu me deparei com uma declaração política, muito bem intencionada, que dizia, “A universidade começa no jardim de infância.” Não, ela não começa. (Risos) Não começa. Se tivéssemos tempo poderia discutir isso, mas não temos. (Risos) O jardim de infância começa no jardim de infância. (Risos) Um amigo meu disse uma vez, “Sabe, alguém de três anos não é metade de um de 6 anos.” (Risos) (Aplausos) Eles têm 3 anos.

Mas como acabamos de ouvir na última sessão, há tanta competição agora para chegar ao jardim de infância, ao jardim de infância correto, que pessoas estão sendo entrevistadas aos três anos. Crianças sentando em frente a comitês indiferentes, vocês sabem, com seus currículos, (Risos) folheando-os e dizendo, “Bem, é isso?” (Risos) (Aplausos) “Você esteve por aí por 36 meses, e é isso?” (Risos) “Você não realizou nada, admita. Passou os primeiros seis meses mamando, como posso ver.” (Risos) Vejam, é extravagante como uma concepção, mas isso atrai pessoas.

A outra grande questão é a conformidade. Construímos nossos sistemas educacionais no modelo de fast food. Isso é algo que Jamie Oliver falou outro dia. Vocês sabem, há dois modelos de qualide nos bufês. Um é fast food, no qual tudo é padronizado. O outro são coisas como restaurantes Zagat e Michelin, nos quais nada é padronizado, são adaptados às circunstâncias locais. E nos vendemos à um modelo de educação fast food. E ele está empobrecendo nosso espírito e nossas energias assim como o fast food está esgotando nossos corpos.

(Aplausos)

Eu acho que temos de reconhecer algumas coisas aqui. Uma é que o talento humano é tremendamente diverso. Pessoas têm diferentes aptidões. Eu percebi recentemente que me deram um violão quando era criança ao mesmo tempo em que Eric Clapton ganhou o seu. Vocês sabem, funcionou para ele, é tudo que direi. (Risos) De alguma forma, não deu para mim. Não conseguia fazer isso funcionar não importava a frequência ou a força que eu dedicava. Apenas não funcionava.

Mas não é apenas sobre isso. É sobre paixão. Frequentemente pessoas são boas em coisas com as quais não se importam. É sobre paixão, e o que excita nosso espírito e nossa energia. E se você faz o que ama, no que é bom, o tempo segue por um caminho totalmente diferente. Minha esposa acabou de escrever um romance, e eu acho que é um ótimo livro, mas ela desaparece por horas. Vocês sabem disso, se está fazendo algo que ama, uma hora parece cinco minutos. Se você está fazendo algo que não ressoa com seu espírito, cinco minutos parecem uma hora. E a razão pela qual muitas pessoas estão desistindo da educação é porque ela não alimenta seus espíritos, não alimenta suas energias ou suas paixões.

Então eu acho que temos de mudar as metáforas. Temos de ir de algo que é essencialmente um modelo industrial da educação, um modelo de manufaturas, que é baseado na linearidade e conformidade e agrupamento de pessoas. Temos de ir para um modelo que é mais baseado nos princípios da agricultura. Temos de reconhecer que a prosperidade humana não é um processo mecânico, mas orgânico. E não se pode prever o resultado do desenvolvimento humano; tudo que se pode fazer, assim como os fazendeiros, é criar condições nas quais eles vão começar a prosperar.

Então quando olhamos para reformas educacionais e transformações, não é como clonar um sistema. Há alguns ótimos como o KIPP, é um bom sistema. Há muitos grandes modelos. Isso é sobre adaptar às circunstâncias, e personalizar a educação para as pessoas as quais você está ensinando. E fazendo isso, acredito, que é a resposta para o futuro porque não é sobre dimensionar uma nova solução; é criar um movimento na educação no qual pessoas desenvolvem suas próprias respostas, mas com suporte externo baseado em um currículo personalizado.

Agora, nessa sala, há pessoas que representam recursos extraordinários nos negócios, na multimídia, na internet. Essas tecnologias, associadas com os talentos extraordinários de professores, fornecem uma oportunidade para revolucionar a educação. E eu encorajo vocês a se envolverem nisso porque é vital, não para nós, mas para o futuro de nossas crianças. Mas temos de mudar de um modelo industrial para um modelo agrícola, onde cada escola pode prosperar amanhã. É aí que as crianças experimentam a vida. Ou em casa, se for onde elas escolherem ser educadas com suas famílias ou amigos.

Tem ocorrido muitas conversas sobre sonhos ao longo dos últimos dias. E eu queria, rapidamente, apenas — Fiquei emocionado pelas músicas da Natalie Merchant noite passado, recuperando velhos poemas. Eu queria ler um rápido, muito pequeno poema do W.B. Yeats, que alguns de vocês devem conhecer. Ele escreveu isso para seu amor, Maud Gonne, e ele estava lamentando o fato que ele não podia dar a ela o que ele pensava que ela queria dele. E ele diz, “Eu tenho outra coisa, mas pode não ser pra você.”

Ele diz isso: “Tive eu tecidos bordados do céu, envoltos com ouro e luz prateada, O azul e o turvo e os tecidos escuros da noite e da luz e da meia-luz, eu espalharia os tecidos sob seus pés; Mas eu, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos; eu espalhei meus sonhos sob seus pés; Caminhe delicadamente porque você caminha sobre meus sonhos.” E todo dia, em qualquer lugar nossas crianças espalham seus sonhos sob nossos pés. E devemos caminhar delicadamente.

Obrigado.

(Aplausos)

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Charles Leadbeater procurou por formas radicais de educação — e as encontrou nas favelas do Rio e Kibera, onde crianças mais pobres do mundo descobrem novas formas transformadoras de aprender. E nessa nova escola, informal e inusitada, diz ele, é o que todas as escolas precisam se tornar.

É uma alegria estar aqui. Um prazer enorme falar após Brian Cox do CERN. Penso que CERN é o lar do Grande Colisor de Hádrons. E o que será que aconteceu com o Pequeno Colisor de Hádrons? Onde está o Pequeno Colisor de Hádrons? Houve uma época em que o Pequeno Colisor de Hádrons era a sensação. Agora, o Pequeno Colisor de Hádrons está num closet, desprezado e rejeitado. Vocês sabiam que quando o Grande Colisor de Hádrons começou, e não funcionou, e as pessoas queriam saber o porquê, foi o time do Pequeno Colisor de Hádrons que o sabotou por causa de ciúmes. As duas famílias do Colisor de Hádrons precisam se acertar.

A lição aprendida na apresentação de Brian, de certa forma — com todas aquelas fotos fantásticas — é realmente essa: a sua perspectiva determina tudo que você vê. O que o Brian dizia era que a ciência tem aberto sucessivamente diferentes pontos de vista do qual podemos ver a nós mesmos. É por isso que é tão valioso. Então o seu ponto de vista determina virtualmente tudo o que você vê. A pergunta que você faz determina muito a resposta que vai receber.

Se por exemplo você perguntar: “Onde devo buscar o futuro da educação?” A resposta que tradicionalmente daremos será bem direta, pelo menos nos últimos 20 anos. Vá à Finlândia. A Finlândia é o melhor lugar no mundo para ver o sistema escolar. Os finlandeses podem ser chatos e deprimentes, e há um índice alto de suícidio, mas,caramba, eles são qualificados. E absolutamente — eles tem um sistema educacional incrível. Então estamos sempre visitando a Finlândia, e nos perguntamos diante do milagre da social democracia da Finlândia e sua cultura homogênea e todo o resto, e daí lutamos por entender como é que poderemos trazer lições de volta.

Bem, neste último ano, com a ajuda da Cisco que me patrocinou, o que foi muito gentil, para fazer essa busca, fui pesquisar em outros lugares. Isso porque na verdade a inovação radical, às vezes vem dos melhores lugares, mas também vem de lugares onde se tem grandes carências, com demandas latentes, não satisfeitas, e sem recursos necessários para a adoção de soluções tradicionais — soluções tradicionais de alto custo que dependem de profissionais, como as escolas e hospitais.

Então acabei indo para lugares como esse. Este lugar é chamado de Morro do Macaco. É uma das centenas de favelas do Rio. O crescimento da maioria da população nos próximos 50 anos acontecerá nas cidades. Vamos crescer 6 cidades de 12 milhões de habitantes por ano pelos próximos 30 anos. Praticamente todo o crescimento será nos países em desenvolvimento. Quase todo o crescimento se dará em lugares como o Morro do Macaco. É aqui que encontrará o maior crescimento da população jovem no mundo. Então se você quer receitas que funcionem — para quase qualquer coisa — saúde, educação, política governamental e educação — você tem que ir a esses lugares. E se você for a eles, você vai conhecer pessoas assim.

Esse jovem chama-se Juanderson. Aos 14 anos, assim como acontece com muitos de 14 anos no sistema educacional do Brasil, ele largou os estudos. Era chato. E Juanderson, ao invés disso, foi atrás de algo que lhe deu oportunidade e esperança onde ele morava, que era o tráfico de drogas. E aos 16 anos, com uma promoção rápida, ele estava controlando o tráfico de drogas em 10 favelas. Ele ganhava mais de 200.000 dólares por semana. Ele empregava 200 pessoas. Ele certamente morreria antes de completar 25 anos. E por sorte, ele conheceu esse cara, que é Rodrigo Baggio, dono do primeiro laptop que apareceu no Brasil. Em 1994, Rodrigo começou algo chamado CDI, que pegava computadores doados por empresas, colocava em centros comunitários nas favelas e montava lugares como esse. O que mexeu com a cabeça de Juanderson foi a tecnologia que fazia o aprendizado ser divertido e acessível.

Ou então vá a lugares como esse. Aqui estamos em Kibera, que é a maior favela na Africa Oriental. Milhões de pessoas moram aqui, espalhadas por muitos quilómetros. E lá conheci essas duas moças, Azra na esquerda, Maureen na direita. Elas terminaram a escola secundária no Quênia. Esse título deve lhe dizer que o sistema educacional do Quênia pega emprestado quase tudo dos inglêses, desde cerca de 1950, mas conseguiu piorar ainda mais. Então existem escolas nas favelas como esta aqui. Há lugares como esse aqui. Aqui é onde Maureen estudava. São escolas particulares. Não há escolas públicas nas favelas. E a educação que receberam era lamentável. Era em lugares assim. Esta escola foi montada por freiras em outra favela chamada Nakuru. Metade das crianças nesta sala não tem pais porque eles morreram de AIDS. A outra metade tem só um pai ou mãe porque um deles morreu de AIDS. Então os desafios da educação em lugares assim não são para que reis e rainhas do Quênia ou da Inglaterra aprendam. O desafio é ficarem vivos, ganharem a vida, não se tornar HIV positivo. A única tecnologia que abrange ricos e pobres em lugares como este não tem nada a ver com a industria tecnológica. Nada a ver com eletricidade ou água. É o telefone celular. Se você quiser desenvolver do zero virtualmente qualquer serviço na África, você deve iniciar com os celulares. Ou então vá a lugares como este.

Aqui é chamada de Colônia Mandangiri Settlement, que é uma favela bem desenvolvida cerca de 25 minutos distante de Nova Delhi, onde conheci esses personagens que me mostraram tudo ao longo do dia. Essa coisa incrível das garotas, e o sinal de um tipo de revolução social varrendo por todos os países em desenvolvimento é que essas garotas não são casadas. Dez anos atrás, elas certamente estariam casadas. Agora elas não estão, e querem continuar com seus estudos e ter uma carreira. Elas foram criadas por suas mães que eram analfabetas, que nunca fizeram lição de casa. Por todos os países em desenvolvimento há milhões de pais, dez, centenas de milhões, que pela primeira vez tem crianças que fazem lição de casa e provas. E a razão de continuarem estudando não é porque eles foram a escolas como esta. Esta é uma escola particular. Uma escola com mensalidade paga. Uma boa escola. É a melhor que você pode ir em Hyderabad entre as escolas da India. A razão por continuarem estudando eu vou lhe dizer.

Este é um computador instalado na entrada da favela por um empreendedor social revolucionário chamado Sugata Mitra que abraçou os experimentos mais radicais, provando que crianças, nas condições certas, podem aprender por conta com a ajuda de computadores. Essas meninas nunca tocaram no Google. Não sabem nada de Wikipedia. Imaginem o que suas vidas seriam se você pudesse ajudá-las nesse acesso.

Então se procurar, como eu fiz, através dessa viagem, e ao pesquisar em cerca de 100 casos de estudos de diferentes empreendedores sociais trabalhando nessas condições extremas, veja quais as receitas que eles trazem para o aprendizado, não tem nada a ver com escola. Como se parece essa iniciativa? Bem, educação é uma religião global. E educação mais tecnologia, é uma grande fonte de esperança. Você pode ir a lugares como esse.

Essa escola está 3 horas de São Paulo. A maioria das crianças tem pais que são analfabetos. Muitos deles nem tem eletricidade em casa. Mas para eles é totalmente óbvio usar computadores, websites, fazer vídeos, e assim por diante. Quando você vai a lugares assim o que você ve é que a educação nesses ambientes funciona por puxar e não empurrar. A maioria do sistema educacional é de empurrar. Eu fui literalmente empurrado para a escola. Quando você vai para a escola, as coisas lhe são empurradas. conhecimento, provas, sistemas,tabelas, Se você quiser atrair pessoas como Juanderson que pode, por exemplo, comprar armas, usar jóias, pilotar motos e pegar garotas pelo tráfico de drogas, e se você quiser atraí-lo para a educação, com um currículo compulsório que não faz sentido algum. Isso não vai atraí-lo nunca. Você tem que puxá-lo. Então a educação precisa ser de puxar e não de empurrar.

Então esta ideia de um currículo é complementamente irrelevante num ambiente assim. Você tem que iniciar a educação pelas coisas que fazem a diferença para eles em seus ambientes. O que isso faz? A chave é a motivação, e há dois aspectos. Um é o de se entregar motivação extrínseca. A educação tem a sua recompensa. Nosso sistema educacional funciona partindo do princípio que há uma recompensa, mas que se tem que esperar por um bom tempo. Se você é pobre, isso é muito. Esperar 10 anos para ser recompensado pela educação é muito quando se tem demandas diárias para serem atendidas, quando você cuida de filhos e familiares ou uma atividade que lhe sustenta. Precisa-se de uma educação que seja relevante e que ajude as pessoas no dia a dia, direto. E ao mesmo tempo ela tem que ser intrinsicamente interessante.

É comum encontrar esse tipo de pessoa. Este é um cara incrível, Sebastião Rocha, de Belo Horizonte, a terceira maior cidade do Brasil. Ele inventou mais de 200 jogos para ensinar praticamente qualquer matéria existente. Nas escolas e comunidades onde Tião trabalha, o dia começa num círculo e começa sempre com uma pergunta. Imagine um sistema educacional que se baseia em perguntas, não em conhecimento fornecido, ou baseado em jogos, não em lições, ou debaixo da premissa que temos que engajar as pessoas primeiro antes de querer ensiná-las. Nossos sistemas educacionais, você só faz isso bem depois, se tiver sorte, esporte, drama, música. É através disso que eles ensinam. Eles atraem as pessoas ao aprendizado porque é no fundo um projeto de dança ou um projeto de circo ou, o melhor dos exemplos — El Sistema da Venezuela — é um projeto de música. Então se atrai pessoas através disso para o aprendizado, e não por acrescentá-lo após todo o aprendizado ter sido feito e tiverem comido suas verduras cognitivas.

Então El Sistema da Venezuela usa o violino como uma tecnologia do aprendizado. Tião Rocha usa a fabricação de sabonete como uma tecnologia de aprendizado. E o que se percebe nessas iniciativas é que eles usam as pessoas e os lugares em formas extremamente criativas. Massas de colegas aprendendo. Como se leva aprendizado às pessoas quando não se tem professores, quando os professores faltam, quando não há recursos, e mesmo quando se consegue os professores, o que eles ensinam, não é relevante para as comunidades que servem? Então forme seus próprios professores. Crie o aprendizado entre pares, ou tenha professores meio expediente, ou traga especialistas. Mas tem que ser de maneira que o aprendizado seja relevante às pessoas através da tecnologia, pessoas e lugares que são diferentes.

Este é um ônibus escola em uma construção em Pune, a cidade que mais cresce na Ásia. Pune tem 5.000 prédios em construção. Tem 30 mil crianças nesses locais de construção. Essa é uma cidade. Imagine a explosão urbana que acontecerá nos países em desenvolvimento e como muitos milhares de crianças estarão na sua fase escolar, próximas dessas construções. Bem, há um iniciativa bem simples que faz a escola acontecer através do ônibus. E todos percebem o aprendizado, não como uma atividade acadêmica, analítica, mas como algo que é produtivo, algo que você faz, algo com o qual se pode ganhar a vida, talvez.

Eu conheci esse rapaz, Steven. Ele tinha morado nas ruas de Nairobi por três anos porque seus pais morreram de AIDS. E finalmente conseguiram trazê-lo para a escola, não pelo diploma de GCSE, mas por ofertar o aprendizado de como ser um carpinteiro, uma habilidade prática. Então as escolas mais avançadas no mundo, de alta tecnologia e outras, elas abraçam a filosofia de aprendizado como uma atividade produtiva. Aqui, não existe realmente uma opção. O aprendizado pode ser produtivo de maneira a ter sentido.

E finalmente, eles tem um modelo de escala diferente. E é o modelo de um restaurante chinês de como se ter escala. E aprendi isso deste sujeito aqui, que é um cara fantástico. Ele é provavelmente o mais marcante empreendedor social atuando em educação no mundo. Seu nome é Madhav Chavan, e ele desenvolveu algo chamado Pratham. Pratham dirige grupos de brincadeiras na pré escola para, hoje, 21 milhões de crianças na Índia. É a maior ONG educacional no mundo. E atua também com crianças em idade de trabalho que vão para as escolas da Índia. Ele é um revolucionário completo. Ele tem uma formação de sindicalista. Foi assim que ele aprendeu suas habilidades para construir essa organização.

Quando chegaram a um determinado estágio, Pratham era grande o suficiente para atrair apoio pro bono da consultoria McKinsey. McKinsey veio e ao analisar o modelo, disseram: “Sabe o que você deve fazer aqui, Madhav? Você deve transformar isso num McDonald. E toda a vez que você forma um núcleo desses você estabelece uma franquia. E você replica onde quer que for. É confiável e as pessoas sabem exatamente onde elas estão. E assim vão manter o padrão.” E Madhav respondeu, “Por que temos que fazer desse jeito? Por que não podemos fazer como os restaurantes chineses?”

Há restaurantes chineses por toda a parte, mas não existe uma rede de restaurante chinês. Mesmo assim, todos sabem o que é um restaurante chinês. Eles sabem o que esperar, mesmo que haja ligeiras diferenças e as cores não sejam as mesmas, e o nome seja diferente. Você sabe que é um restaurante chinês quando se olha para ele. Esse pessoal trabalha com o modelo do restaurante chinês. Mesmos princípios, aplicações diferentes e montagens diferentes. Não o modêlo do McDonald. O modêlo do McDonald faz escala. O modelo do restaurante chinês espalha.

Então a educação em massa começa como um empreendimento social no século 19. E é isso que desesperadamente precisamos retomar numa escala global. E o que podemos aprender disso tudo? Bem, podemos aprender muito porque os nossos sistemas educacionais estão falhando de muitas maneiras. Falham em alcançar as pessoas às quais devem servir. Geralmente acertam o alvo, mas erram no ponto. As melhorias cada vez mais são difíceis de organizar. Temos uma fé cega nestes sistemas – já enraizada. E aqui temos uma maneira bem simples de entender o tipo de inovação, o tipo de desenho diferente que precisamos.

Há dois tipos de inovação. Há a inovação de sustentação, que vai manter uma instituição existente ou organização, e há a inovação de rompimento que vai quebrar os fundamentos, criando algo diferente para se fazer. Há estruturas formais, escolas, faculdades, hospitais, lugares onde a inovação pode acontecer, e as estruturas informais, comunidades, famílias, redes socias. Praticamente todo nosso esforço vai aqui, inovação que mantém as estruturas formais, em obter uma versão melhor do que é na essência o sistema escolar Bismarckiano desenvolvido no século 19. E como disse, o problema aqui, para os países em desenvolvimento é que não existem professores para fazer esse modelo rodar. Seriam necessários milhões e milhões de professores na China, Índia, Nigéria e no restante dos países em desenvolvimento. E em nosso sistema, sabemos que simplesmente fazendo mais disso não diminuirá as profundas desigualdades educacionais, especialmente nas grandes cidades e nas áreas industriais em transformação.

É por isso que precisamos três tipos adicionais de inovação. Precisamos de mais reinvenção. E por todo o mundo hoje podemos ver mais e mais escolas se reinventando. São escolas reconhecidamente, mas se apresentam diferente. Há escolas de grande renome nos EUA e Austrália. Há as escolas Kunscap Skolan na Suécia. De 14 delas, somente duas estão em escolas. A maioria está em prédios que não foram desenhados como escolas. Esta é uma escola maravilhosa em Queensland Norte chamada Jarigan. Elas têm os mesmos tipos de ênfases, são altamente colaborativas, muito personalizadas, carregadas de tecnologia. O aprendizado inicia com perguntas e problemas e projetos, não pelo conhecimento e currículo. Então certamente precisamos mais disso.

Mas porque tantas dessas questões em educação não são particularidades da escola, referem-se à família e comunidade, o que se precisa fazer, definitivamente, é mais no lado direito. Tem-se que realizar esforços para apoiar as escolas. A mais famosa de todas é a Reggio Emilia na Itália, um sistema de aprendizado baseado na família que apoia e encoraja as crianças nas escolas. A mais vibrante é a Harlem Children’s Zone, que nos últimos 10 anos, dirigido por Geoffrey Canada, tem, através de uma mistura de projetos de escola, família e comunidade, tem se esforçado na transformação, não só da educação nas escolas, mas o todo de uma cultura e aspiração de cerca de 10 mil famílias no Harlem. Precisamos mais dessas iniciativas de um novo pensamento radical. Pode-se ir a lugares em menos de uma hora, saindo deste auditório, no final da rua, que demandam precisam de um tipo de radicalismo que ainda não imaginamos.

E finalmente, precisamos de inovação transformadora que possa imaginar como levar o aprendizado para pessoas em maneiras complementamente novas e diferentes. Estamos chegando, 2015, para uma realização fora de série, o mundo todo escolarizado. Todas as crianças de até 15 anos que quisererem estar na escola poderão em 2015. Isso é algo incrível. Mas é algo, diferente dos carros que foram desenvolvidos tão rapidamente e padronizado, na verdade o sistema escolar é reconhecidamente uma herança do século 19, tirada de um modelo Bismarckiano da escola alemã que foi abraçada pelos reformadores inglêses, e levado também pelos missionários religiosos, aceito nos Estados Unidos como uma força de coesão social, e daí para o Japão e Coreia do Sul no seu desenvolvimento.

Reconhecidamente tem suas raízes no século 19. É claro que é uma realização imensa. E é claro vai trazer grandes contribuições. Vai trazer habilidades e aprendizado e leituras. Mas também vai trazer estragos na imaginação. Vai trazer estragos no apetite. Vai trazer estragos na confiança social. Vai estratificar a sociedade o tanto quanto a liberta disso. E estamos deixando como um legado para os países em desenvolvimento um sistema escolar no qual eles vão se dedicar mais cem anos tentando reformá-lo. É por isso que precisamos de pensamento radical, e por isso que o pensamento radical agora em como aprendemos é mais necessário e possível que nunca.

Obrigado.

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Palestrando na LIFT 2007, Sugata Mitra fala sobre seu projeto Buraco na Parede. Jovens crianças nesse projeto descobriram sozinhos como usar um PC — e depois ensinaram a outras crianças. Ele pergunta, o que mais as crianças podem se ensinar?

Tenho uma tarefa difícil. Sabem, quando olhei para o perfil da audiência aqui presente, com todas as suas conotações e design, em todas as suas formas, e com tanta gente a trabalhar em colaboração e nas redes sociais. Que eu queria dizer-vos… Queria construir uma argumentação em favor da educação primária num contexto muito específico. Para fazer isso em 20 minutos, terei de vos trazer 4 ideias centrais — como quatro peças de um puzzle. E se eu conseguir isso, talvez vocês levem convosco a ideia de que também podem construir algo e talvez ajudar-me no meu trabalho.

A primeira peça do puzzle é a interioridade e a qualidade da educação. Bem, por interioridade, refiro-me a 2 ou 3 diferentes tipos de ideias. Claro, interioridade, no seu sentido comum, significa que quanto mais nos afastamos de um centro urbano mais nos aproximamos de zonas remotas. O que acontece à educação? A segunda ou um diferente tipo de interioridade é que, dentro das grandes zonas metropolitanas, em todo o mundo, temos bolsas de marginalizados, bairros da lata, bairros degradados ou zonas pobres, as quais são social e economicamente isoladas do resto da cidade. Somos ‘nós’ e ‘eles’. O que acontece à educação nesses contextos? Então, mantenham estas duas formas diferentes de interioridade.

Nós construímos uma hipótese. A nossa suposição era de que as escolas de áreas remotas não têm professores bons em número suficiente. E mesmo que os tenham, não conseguem reter esses professores. Não têm infra-estruturas adequadas. E mesmo que tivessem algumas infra-estruturas, têm grande dificuldade em mantê-las. Mas eu queria confirmar se isto era realmente verdade. Então o que fiz o ano passado foi… alugámos um carro, pesquisámos no Google, encontrámos uma estrada que se dirige para o norte da Índia, a partir de Nova Deli, uma estrada que não atravessava nenhuma grande cidade ou algum grande centro metropolitano. Conduzimos cerca de 300 quilómetros, e, em todos os locais em que encontrávamos uma escola, administrámos um conjunto de testes standardizados, depois pegámos nos resultados desses testes e colocámo-los num gráfico. O gráfico é interessante, ainda que tenhamos de o considerar com cuidado. Esta é uma amostra muito pequena; não devem generalizar a partir dela. Mas foi bastante óbvio, bastante claro, que, para essa estrada em particular, quanto mais remota a escola era, piores pareciam ser os resultados. Isto parecia ser um pouco ‘condenatório’, Então tentei correlacionar isso com coisas como infra-estruturas, ou com a disponibilidade de electricidade e coisas como essas.

Para minha surpresa, elas não se correlacionavam. Não se correlacionava com o tamanho das salas de aula. Não se correlacionava com a qualidade das infra-estruturas. Não se correlacionava com o nível de pobreza. Simplesmente não se correlacionava. Mas o que ocorreu foi que nós tinhamos administrado um questionário em cada uma dessas escolas, com uma única pergunta para o professor, que era “Gostaria de se mudar para uma zona urbana, metropolitana?” 69% dos professores disseram que sim, e o que podem ver aqui é que eles dizem que sim nas áreas um pouco afastadas de Deli e dizem que não quando chegamos aos subúrbios ricos de Deli porque essas são áreas relativamente mais prósperas. E depois, a 200 km de Deli, a resposta é consistentemente ‘sim’. Eu imaginaria que um professor que entra na aula todos os dias, a pensar “Quem me dera estar numa outra escola”, terá provavelmente um grande impacto sobre os resultados. Portanto, parecia que a motivação dos professores e o seu desejo de migração eram algo que se correlacionava fortemente com o que se estava a passar nas escolas primárias por oposição àquilo que as crianças tinham para comer ou a como se amontoavam em salas de aula sobrelotadas e esse tipo de coisas. Assim parecia ser.

Quando tomamos em consideração a educação e a tecnologia, encontramos na literatura que coisas como websites, ambientes colaborativos — temos ouvido isso na parte da manhã — são sempre experimentados primeiro nas melhores escolas, nas melhores escolas urbanas, o que, na minha opinião, enviesa os resultados. A literatura — uma parte dela — a literatura científica culpa consistentemente as Tecnologias Educativas (TE) de serem hiper-promovidas e apresentarem um mau desempenho. Os professores acabam sempre por dizer “Bem, isto é bom, mas é muito caro para aquilo que faz”. Porque se estão a fazer experiências-piloto em escolas onde os alunos já atingem, vamos dizer, 80% do que era suposto atingirem. Vocês põem lá uma nova super-tecnologia, e então eles passam a atingir 83%. O director da escola olha para os resultados e diz, “3 por cento por 300 000 doláres? Esqueçam!!!” Se pegassem na mesma tecnologia e a pusessem à prova numa dessas escolas das zonas remotas onde os resultados são de 30 por cento e, digamos, eles aumentavam para os 40 por cento, isso seria totalmente diferente. Portanto a mudança relativa que as TE poderiam promover seria muito maior na parte inferior da pirâmide do que no topo, contudo parece que nós tendemos a fazer a coisa ao contrário.

Cheguei à conclusão que as TE deveriam chegar primeiros aos desfavorecidos e não o inverso. Finalmente cheguei à questão “Como alterar a percepção dos professores?” Sempre que vamos ter com um professor e lhe apresentamos alguma tecnologia a primeira reacção do professor é, não se pode substituir um professor por uma máquina — isso é impossível. Eu não sei porque é que é impossível, mas, por um momento, se nós assumirmos que isso é impossível — tenho uma citação de Sir Arthur C. Clarke, o escritor de ficção científica que conheci em Colombo, e ele disse algo que resolve completamente o problema. Ele disse: “Um professor que pode ser substituído por uma máquina, deveria sê-lo!” Então, estão a ver que isso põe o professor numa situação difícil… temos de pensar. Seja como for, o que eu venho propor é que uma educação primária alternativa, tão alternativa quanto a quiserem considerar, é necessária onde as escolas não existem, onde as escolas não são boas o suficiente, onde os professores não se encontram disponíveis ou onde os professores não são bons o suficiente, quaisquer que sejam as razões. Se vocês vivem, por acaso, em alguma parte do mundo onde nenhuma destas situações se aplica, então vocês não precisam de uma educação alternativa. Mas até agora ainda não encontrámos uma zona assim, excepto num caso. Não vou dizer o nome da zona, mas, algures no mundo, as pessoas dizem “Nós não temos esse problema porque nós temos professores perfeitos e escolas perfeitas.” Este tipo de zonas existe, mas — seja como for, eu nunca ouvi isso em mais nenhum outro lugar.

Vou falar-vos de crianças e de auto-organização, e de um conjunto de experiências que conduziram a esta ideia de como poderia ser uma educação alternativa. Foram denominadas ‘Experiências do buraco-na-parede’. Tenho que passar por isto de forma muito rápida. Foram um conjunto de experiências. A primeira foi feita em Nova Deli em 1999. E o que nós fizemos foi muito simples. Eu tinha um escritório, naquela altura, que ficava junto a um bairro da lata, um bairro degradado urbano e portanto havia um muro que dividia os nossos escritórios e esse bairro. Fizemos um buraco nesse muro — foi por isso que ficou com o nome de ‘buraco-na-parede’ — e colocámos um PC bastante potente nesse buraco, como que encorporado no muro de modo que o monitor sobressaía do outro lado do muro, um touchpad também embutido na parede, ligámo-lo à internet de alta velocidade, integrámos o Internet Explorer, o Altavista.com — que era usado naquela altura — e simplemente deixámo-lo lá.

E isto foi o que nós vimos. Então, aquele era o meu escritório na IT*. Aqui está o buraco-na-parede. Cerca de 8 horas depois encontrámos este miúdo. À direita está uma criança de 8 anos e à sua esquerda está uma menina de 6 anos que não é muito alta. E o que ele estava a fazer era a ensiná-la a navegar. Isto acabou por levantar mais perguntas do que respostas. Isto é real? Será que a língua importa, porque ele não era suposto saber inglês? Irá o computador durar ou eles acabarão por parti-lo ou roubá-lo, e será que alguém os ensinou? A última pergunta é o que toda a gente disse, mas vocês sabem, eles devem ter-se esticado sobre o muro e perguntado a alguém do vosso escritório “Pode-me mostrar como isto se faz?” e então alguém o ensinou.

Então levei a experiência para fora de Deli e repeti-a, desta vez numa cidade chamada Chifpuri no centro da Índia, onde tinha a garantia de que nunca ninguém tinha ensinado nada a ninguém. (Risos) Era um dia quente, e o buraco-na-parede foi feito neste velho edifício decadente. Este é primeiro miúdo a chegar e que acabou por ser um miúdo de 13 anos que tinha desistido da escola. Ele chegou e começou a brincar com o touchpad. Muito rapidamente reparou que, quando movia o dedo no touchpad, algo se movia no ecrã — mais tarde disse-me: “Eu nunca tinha visto uma TV onde se podem fazer coisas”. Descobriu isso sozinho. Demorou apenas 2 minutos até perceber que estava a fazer coisas na televisão. E depois, enquanto estava a fazer isso, fez um clique acidental ao bater ligeiramente no touchpad — vão vê-lo fazer isso. Ele fê-lo e o Internet Explorar mudou de página. 8 minutos depois, olhou para a mão e para o ecrã e começou a navegar: movia-se para a frente e para trás. Quando isso aconteceu, foi chamar todas as crianças da vizinhança para que as crianças viessem e vissem o que estava a acontecer. E no final da tarde desse dia, havia 70 crianças todas a navegar na web. 8 minutos e um computador embutido na parede parecia ser tudo o que precisávamos.

Então pensámos que o que estava a acontecer era que crianças em grupos conseguem auto-ensinar-se a usar um computador e a internet. Mas em que circunstâncias? Nesse momento a principal questão era acerca do inglês. As pessoas diziam: “Sabes, tens de encontrar a forma de ter isto na língua indiana”, então eu disse: “Ter o quê? Traduzir a internet para alguma língua indiana? Isso não é possível!” Tem de ser ao contrário. Mas vamos ver, como é que as crianças enfrentam a Língua Inglesa? Levei a experiência para o Nordeste da Índia, para uma aldeia chamada Madantusi onde, por alguma razão, não havia professor de Inglês, e as crianças não haviam aprendido nada de Inglês. E construí um ‘buraco-na-parede’. Uma grande diferença nas aldeias, por oposição aos bairros da lata urbanos: havia mais raparigas do que rapazes a vir ao quiosque. Nos bairros da lata, as raparigas tendiam a manter-se afastadas. Deixei lá um computador com muitos CDs — lá não tinha internet — e regressei três meses depois. Então quando voltei, encontrei estes 2 crianças, com 8 e 12 anos, que estavam a jogar um jogo no computador. Assim que me viram, disseram-me, ‘Precisamos de um processador mais rápido e de um rato melhor’. (Risos) Foi uma grande surpresa. Como é que eles sabiam tudo isso? E eles disseram: “Aprendemos com os CDs.” E então eu disse: ‘Mas como é que perceberam o que se estava a passar?’ Eles disseram: ‘Bem, vocês deixaram aqui esta máquina que só fala Inglês, e então nós tivemos de aprender Inglês.” Então vi que eles estavam a usar 200 palavras inglesas entre si — mal pronunciadas, mas utilizadas correctamente — palavras como Exit, Stop, Find, Save, esse tipo de palavras não só por causa do computador mas também nas suas conversas do dia-a-dia. Madantusi acabou por mostrar que a Língua não é uma barreira. na verdade, eles poderão ser capazes de ensinar a si mesmos essa Língua. se realmente quiserem.

Finalmente, consegui algum financiamento para tentar levar esta experiência para fora para ver se estes resultados eram replicáveis; se aconteciam noutros locais. A Índia é um bom lugar para fazer esta experiência porque temos todas as diversidades étnicas, todas… vocês sabem, a diversidade genética, a diversidade racial, e todas as diversidades sócio-económicas. Assim, pude escolher amostras que cobrissem transversalmente todas essas secções de forma a abranger praticamente o mundo inteiro. Fiz isto durante quase 5 anos e esta experiência levou-nos por toda a Índia, de cima a baixo. Isto é os Himalaias. Em cima, no norte, é muito frio. Também tive de testar ou inventar um design de engenharia que resistisse ao ar livre, e eu estava a usar PC’s comuns, normais, então eu precisava de diferentes climas, para o que a Índia também é fantástica porque temos muito frio, muito calor e por aí fora. Isto é o deserto a oeste, perto da fronteira com o Paquistão. E podem ver aqui um pequeno clip de… uma dessas aldeias — a primeira coisa que as crianças fizeram foi encontrar um website que lhes ensinasse o alfabeto inglês.

Depois na Índia Central — muito quente, húmido, aldeias de pescadores onde a humidade é o grande destruidor da electrónica. Assim tivemos de resolver todos os problemas sem ar condicionado e com muito pouca electricidade, a maioria das soluções que arranjámos foi usar sopros de ar colocados no sítio certo para manter as máquinas a funcionar. Quero ser breve. Fizemos isto repetidamente. Esta sequência também é engraçada. Esta é uma criança pequena, 6 anos, a dizer à irmã mais velha o que ela deve fazer. Isto aconteceu muitas vezes com estes computadores, as crianças mais novas a ensinarem as mais velhas.

O que é que descobrimos? Descobrimos que crianças de 6 a 13 anos conseguem ensinar-se a si mesmas num ambiente colaborativo, independentemente de tudo o que pudéssemos medir. Se tiverem acesso a um computador, elas ensinar-se-ão a si mesmas. Não consegui encontrar uma única correlação, mas tinha de ser em grupo. E tem de ser algo de grande interesse para este grupo porque todos vós têm falado de grupos. E aqui está o poder do que um grupo de crianças consegue fazer se retirarmos a intervenção dos adultos.

Só uma rápida ideia acerca dos resultados. Utilizámos testes estatísticos estandardizados, então não vou falar disso. Mas encontrámos uma curva perfeita na aprendizagem, quase exactamente a mesma que poderia ser encontrada numa escola. E ficamos por aqui, porque, quero dizer, isto diz tudo, não diz? O que é que as crianças podiam aprender? Funcionalidades básicas do Windows, pesquisar na web, pintar, comunicar em chats e por email, jogar e materiais educativos, descarregar música, visualizar filmes. Em resumo, o que todos nós fazemos. Cerca de 300 crianças tornaram-se info-incluídos e foram capazes de fazer estas coisas todas em 6 meses com um computador.

Como é que elas o fizeram? Se calcularem o tempo real de acesso, chegariam a cerca de 2 minutos por dia, portanto não foi por isso que aconteceu. O que acontece, realmente, é que existe uma criança a operar o computador e à volta dela estão normalmente 3 outras crianças, que lhe dizem o que deve fazer. Se as testarmos, todas as 4 crianças terão os mesmos resultados seja em que for que lhe perguntemos. À volta dessas 4, está normalmente um grupo de cerca de 16 crianças, que também aconselham, geralmente de forma errada, acerca de tudo o que se está a passar no computador. E também todas passaram no teste aplicado acerca do tópico. Portanto, elas aprendem tanto por ver como aprendem ao fazer. Isto parece contra-intuitivo para a aprendizagem de adultos, mas lembrem-se, as crianças de 8 anos vivem numa sociedade onde, na maior parte do tempo, lhes é dito: ‘Não faças isso’. Vocês sabem… ‘Não mexas na garrafa de whisky’ Então o que é que as crianças de 8 anos fazem? Observam com muita atenção como é que se mexe numa garrafa de whisky. E se a colocarem à prova, ela responderia correctamente a qualquer pergunta. Assim parece que elas aprendem muito rapidamente.

Então, qual foi a conclusão após 6 anos de trabalho? Foi que a educação primária pode acontecer por si mesma ou partes dela podem acontecer por si mesmas. Não tem de ser imposta de cima para baixo. Pode provavelmente ser um sistema auto-organizado, de maneira que — e esta é a segunda ideia que vos quero deixar, as crianças conseguem auto-organizar-se e atingir um dado objectivo educativo.

A terceira ideia liga-se aos valores, e novamente, para colocar isto muito rapidamente, apliquei o teste a mais de 500 crianças em toda a Índia e perguntei-lhes — dei-lhes cerca de 68 perguntas diferentes orientadas para valores e simplesmente perguntei-lhes o que achavam. Tivemos todo o tipo de opiniões. Sim, não e não sei. Peguei nas questões onde tive 50% de sim e 50% de não e acabei por ficar com um conjunto de 16 frases. Estas eram áreas em que as crianças estavam claramente confusas, pois metade dizia que sim e metade dizia que não. Um bom exemplo seria: “Às vezes, é necessário dizer uma mentira.” Elas não sabem como responder a esta questão; talvez nenhum de nós saiba. Então deixo-vos com esta terceira questão. Será que a tecnologia pode alterar a aquisição de valores? Por último, os sistemas auto-organizados, acerca dos quais não vou dizer demasiado porque têm estado a ouvir falar deles. Os sistemas naturais são todos auto-organizados: galáxias, moléculas, células, organismos, sociedades — com excepção do debate acerca de um designer inteligente. Mas neste momento da história, até onde a ciência chegou, é auto-organização. Outros bons exemplos são os engarrafamentos, o mercado bolsista, a sociedade e o restabelecimento dos desastres naturais, o terrorismo e a insurreição. E sabem que a internet é baseada num sistema auto-organizado.

Então aqui ficam as minhas 4 ideias. A interioridade afecta a qualidade da educação. A tecnologia educacional deveria ser introduzida primeiro nas zonas remotas e só depois noutras zonas. Os valores são adquiridos; as doutrinas e os dogmas são impostos — e com base em mecanismos opostos. E a aprendizagem é muito provavelmente um sistema auto-organizado. Se juntarmos estas 4 ideias, então conclui-se — digo eu — isso dá-nos um propósito, uma visão para a tecnologia educacional. E a tecnologia educativa e a pedagogia que é digital, automática, tolerante ao erro, minimamente invasiva, conectada e auto-organizada. Como educadores, nós nunca pedimos tecnologia, estamos sempre a recebê-la emprestada. O PowerPoint é suposto ser considerado a grande tecnologia educativa, mas nunca se pretendeu que fosse para a educação, pretendia-se que fosse para fazer apresentações em reuniões de direcção. Nós tomámo-lo emprestado. A vídeo-conferência. O próprio computador pessoal. Acho que já é tempo de os educadores criarem as suas próprias exigências e eu tenho um conjunto de exigências. Vamos ver. Esse conjunto de exigências deveria poder contribuir para que a tecnologia considerasse a interioridade, os valores e a violência. Pensei que poderia dar-lhe um nome — porque é que não lhe chamamos “não-doutrinação”. Isto poderia ser um propósito para a tecnologia educativa do futuro. É esta a ideia que vos quero deixar.

Muito obrigado.

(Aplausos)

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